Sobre a questão do Bem e o Mal


Crédito Fotográfico: Ibrahim M. Al Sayed

"A bondade é maldade transmutada pela força da evolução, e o Mal é o Bem caído na involução.
- O Bem e o Mal são, então, na sua essência, a mesma coisa?
- Por acaso pode haver duas essências absolutas? Podem coexistir duas forças absolutas? Tu sabes que não. O Essencial deve ser forçosamente Uno.
- Então, venerável irmão, são a mesma coisa o Bem e o Mal, as duas a mesma essência?
- A essência é una, todavia ela está além do Bem e do Mal, tal como os apreciamos no nosso presente estado mental. Ela está "por detrás", se me permites a expressão, de toda a manifestação. Isto, mal que pese aos mentalistas, que tudo querem reduzir ao inteligível e ao inteligente, é uma verdade evidente na Natureza, e a ascese mística confirma-o. O cão é manso e amigo do homem: nós chamamos-lhe bom; o leão, pelo contrário, parece uma encarnação do indómito e, se lhe for possível, despedaça e devora quantos seres humanos estiverem ao seu alcance: chamamos-lhe animal daninho, mau. Mas são, na realidade, seres bons e maus? Não será a nossa apreciação emotivo-mental pessoal que julga pelos factos externos, completamente "a priori"? O cão é bom para as suas vítimas, ou para os animais que despedaçamos a fim de alimentá-lo, para as peças de caça que entrega às mãos do homem? Por outro lado, é o leão mau para as árvores, as rochas, as mariposas?"
in "O Alquimista" de Jorge Angel Livraga



Considero particularmente útil para a compreensão do que é o Bem e o Mal, recorrer à filosofia hermética, nomeadamente ao Princípio de Polaridade que postula: 
"Tudo é duplo; tudo tem pólos; tudo tem o seu oposto; o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são meias-verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados."  (Kybalion)
É explicado que os pólos ou opostos são apenas extremos da mesma coisa, sendo assim idênticas em natureza mas diferentes em grau. 

Como exemplo análogo temos o calor e o frio, que ainda que sejam opostos, são a mesma coisa, e a diferença que há entre eles consiste apenas numa variação de grau. O calor e o frio serão dois pólos daquilo a que chamamos Temperatura ou Calor, e os fenómenos que daí decorrem são manifestações desse Princípio da Polaridade. 

O mesmo Princípio se manifesta no caso da luz e da escuridão, que são a mesma coisa, consistindo a diferença apenas em vibrações de grau entre os dois pólos extremos. Onde começa a escuridão e começa a luz? Qual é a diferença entre o grande e o pequeno? E entre o forte e o fraco? O branco e o preto? O inteligente e o ignorante? O alto e o baixo? Entre o positivo e o negativo?
E entre o Amor e o Ódio? Que são dois estados totalmente diferentes, e apesar disso existem graus de ódio e de amor, e num ponto médio entre eles, um estado que classificamos como indiferente pois nem é uma coisa nem outra.

Uma conclusão particularmente útil para a nossa vida prática que deriva deste princípio é a de que podemos transmutar um pólo em outro. Assim como se conseguem transformar estados vibratórios de partículas atómicas num estado de menor vibração para outro mais excitado energeticamente pelo fornecimento de energia, assim também, pela compreensão profunda deste princípio e exercendo a nossa vontade, é possível transmutar estados mentais de menor vibração (como p.ex. o ódio) em estados mentais de maior vibração, que são o pólo oposto (como o amor). A transformação oposta também ocorre, pela degradação de uma vibração mais elevada numa mais grosseira.

Diariamente e naturalmente, nós conseguimos sentir exemplos destas mudanças nos nossos estados, que se despoletam na maioria das vezes de forma inconsciente, e geralmente de estados mais elevados a estados mais grosseiros, sem compreendermos os processos que levam a que existam essas mudanças, o que nos torna vulneráveis a alterações que não escolhemos. Assim, de repente, estávamos alegres, cheios de energia e com um sorriso para o mundo, mas por intervenção de alguma coisa que nos acontece e nos "retira energia", ficamos tristes, cansados e mal-dispostos.

Compreender e ter consciência dos processos interiores que ocorrem dentro de nós é o que nos leva a ter comando sobre a nossa própria vida. E a filosofia, no seu verdadeiro sentido, não é mais do que a atitude na vida que nos leva a descobrir e usar todos esses elementos que nos são úteis para, no fundo, vivermos melhor e sermos mais felizes.

E tu, já fotosophaste hoje?