Sobre o fim do mundo




Hoje irei abusar da vossa paciência e gosto pela leitura e estender-me um pouco neste post que espero que contribua para vos esclarecer e ampliar os horizontes. Muito se tem falado sobre este tema e uma autêntica histeria foi gerada à volta do mesmo, histeria essa inteligentemente aproveitada por outros que se dedicaram e dedicam a ganhar muito dinheiro com isto. Felizmente o nosso país, por tradição moderado e neutro, sente pouco este fanatismo com a ideia do fim do mundo, face a outros locais do planeta.

O homem tem sempre a tendência a cair no protagonismo e na necessidade de se sentir o centro do universo, dando expressão ao seu egocentrismo, o que deriva, entre outras coisas, nas fantasias escatológicas. Assim, o Sol é que girava em torno da Terra, o que Deus faz ou deixa de fazer gira sempre em torno e como consequência das acções do homem, se existirem extraterrestres é óbvio que estão preocupadíssimos em comunicar connosco ou em tentarem destruir-nos, e todos os desastres naturais têm que ser encarados com um filtro Hollywoodesco em que a espécie humana é o centro de tudo e a única perspectiva sob a qual podemos perceber um acontecimento.

Se nos conseguirmos destacar desta loucura do egocentrismo, talvez poderemos observar que tudo tem leis próprias que não dependem nem servem o homem. O tempo, questão fulcral para se entender esta questão do "fim do mundo", também tem a sua própria lei, que é muitas vezes ignorada. Se encararmos o tempo como um fluxo que não é linear, mas que se desenvolve em espiral num movimento progressivo, podemos começar a entender o que são ciclos e porque por vezes temos a sensação de que certas coisas se repetem, seja na nossa vida, na vida dos outros, na sociedade, na história, na natureza, etc. 

Existem ciclos. Podemos ver todos os dias na repetição do nascer-do-sol e do pôr-do-sol. Apesar de ser o mesmo "acto" repetidas vezes, há uma progressão no tempo e há sempre alguma diferença: nenhum nascer do sol é exatamente igual ao seguinte, nem a nossa percepção do mesmo é da mesma maneira, devido às flutuações dos nossos estados de espírito. O mesmo se passa com o acordar e o adormecer, e com ciclos mais complexos como são os históricos, em que as mesmas situações são passadas pela humanidade, em tempos diferentes e com diferente "roupagem", mas são a mesma situação, exigiam o mesmo tipo de bases e muitos generais e líderes no passado, sabendo isto, estudavam afincadamente a História com vista a empreender decisões mais certeiras, apoiando-se nas experiências do passado em situações semelhantes, ainda que não exatamente iguais.

Estes ciclos, que são mais facilmente visíveis quando se tem uma maior ligação ao meio natural, pois o seu funcionamento base assenta neles (todos conhecemos os ciclos das marés, da Lua, etc), eram mais óbvios às sociedades antigas. Do desenvolvimento desta percepção, conseguiram intuir e raciocinar sobre as leis sob as quais se manifestam esses ciclos. Tiveram a capacidade de achar uma ligação que ainda hoje se procura matematizar na ciência, nomeadamente na Física: uma união entre as leis do infinitamente pequeno e das do infinitamente grande -  a Teoria de Tudo (Law of Everything), como foi chamada pelo cientista Stephen Hawking. Este pensamento que os animava pode-se traduzir nas palavras: "O que está em cima é como o que está em baixo, e o que está em baixo é como o que está em cima.", que é uma das leis ou princípios da filosofia hermética, o que quer dizer que existe uma relação de analogia (e não de igualdade) entre os grandes sistemas e os pequenos sistemas, existindo também uma relação de analogia entre as realidades menos materiais, mas ainda assim reais (como as estruturas de pensamento e as emoções, p.ex) e as mais concretas (p.ex. as físicas).

O que está em cima é como o que está em baixo, e o que está em baixo é como o que está em cima.

Muito brevemente, os Maias acreditavam que esta altura pela qual passamos seria um ponto de inflexão de um ciclo e não o fim do mundo. Quanto muito, seria o fim de "um" mundo, um conjunto de estruturas subjacentes a uma realidade pessoal, social, psicológica, mental, etc, que desabaria ou transmutar-se-ia para dar lugar à construção de novas formas e estruturas, formando assim a semente de um novo ciclo e de um "novo mundo". Esta data que vivemos, a 21 de Dezembro de 2012, era considerada para os Maias como o último dia de um ciclo de 5125 anos do seu calendário de contagem longa, da mesma maneira que o 31 de Dezembro postula para nós o fim do calendário anual, diferindo assim apenas na ideia de tempo linear ao contrário da noção de tempo cíclico dos Maias.

Tenho visto duas abordagens distintas para este tema nas pessoas: a crença num fim do mundo apocalíptico derivado de diversas explicações pseudo-científicas ou fantasiosas, que é a crença num mal ao qual não podemos escapar, dando lugar ao surgimento de toda a espécie de medos enraízados na psique humana encaminhando-se em extremo para um sentimento de pânico e incapacidade, e a outra abordagem centra-se numa mudança provinda do exterior, que por si só causaria uma transformação interior nas pessoas e consequentemente no mundo, o que é a crença num bem, que reside fora de nós e que nos "resolve" os problemas e nos dá paz, consciência, amor, etc. O que implícitamente envolve uma certa desresponsabilização (pois as energias, influências, alinhamentos, etc, farão tudo por nós), e estagnação da acção positiva de crescimento e desenvolvimento pessoal e colectivo.

Penso que a resposta correcta para quaisquer indagações que vos possam surgir está, como diz no Budismo, no Caminho do Meio. Não há bem, nem há mal nas coisas, existem apenas leis, que sujeitas a interpretação ou determinado uso, se tornam em bem ou em mal. Existem ciclos. Existem estruturas dentro e fora de nós que decaem com o tempo e são reconstruídas continuamente, pois tudo está sempre em movimento, umas vezes mais vísivel e outras num movimento tão suave que quase nos parece parado. Também existem influências: dos outros sobre nós, da Lua (as mulheres sentem especialmente isto nos seus corpos e emoções), do Sol (na nossa vitalidade - como nos sentimos bem após apanhar aquele sozinho no rosto...), de imensas coisas que nem conseguimos quantificar ou perceber em que consistem, mas que no entanto não nos retiram totalmente a capacidade de agir segundo o que queremos fazer por estarmos "influenciados", se verdadeiramente temos força de vontade e uma mente decidida, embora nos possam dar algumas condicionantes ao nosso caminho.

Se esta altura é um ponto de inflexão entre o fim de uma estrutura e outra, então aproveitemos para deitar fora o velho e deixar entrar o novo, em vez de continuar a fazer remendos. Aproveitemos para fazer a renovação de paradigmas, conceitos, crenças, modos de agir, de sentir, de falar, de amar, de tratar do nosso corpo, da nossa casa, do nosso entorno, de quem está ao nosso lado, daquele que está no outro lado do mundo, da natureza que nos rodeia, da nossa compreensão do mundo, dos nossos hábitos velhos e que nos provocaram já a estagnação que não nos leva a lado nenhum, em suma, renascer para o mundo assim como para nós mesmos. E para os que querem um mundo melhor e uma vida mais feliz, saibam que esse mundo só virá quando cada um dos que vivem nele se empenharem nesta renovação integral, de dentro para fora em primeiro lugar, pois o mundo é reflexo daquilo que somos e do que temos dentro.

Tenham um bom dia e... até amanhã! :)