Ver o mundo como ele é

Créditos fotográficos: Massimiliano Ramuschi


"Olhou de novo em seu redor, como se visse o mundo pela primeira vez. O mundo era belo, estranho e misterioso. Havia azul, amarelo e verde, havia céu e rio, havia florestas e montanhas, tudo belo, tudo misterioso e fascinante, e no meio de tudo estava ele, Siddhartha, o que despertara, a caminho de si mesmo. Tudo aquilo, todo aquele amarelo e azul, rio e floresta, passou pela primeira vez pelos olhos de Siddhartha. Já não eram a magia de Mara, já não eram o véu de Maya, já não eram as diversidades fortuitas e sem sentido das aparências do mundo desprezadas pelos profundos pensadores brâmanes, que desdenhavam a diversidade e procuravam a unidade. Rio era rio, e se o Único e o Divino em Siddhartha viviam secretamente em azul e rio, era apenas por a arte e a intenção divinas quererem que ali fosse amarelo e azul, ali céu e floresta - e aqui Siddhartha. O significado e a realidade não estavam ocultos, algures, atrás das coisas; estavam nelas, em todas elas."

in "Siddharta" de Hermann Hesse