A vida como uma composição musical





"A vida é o que te acontece enquanto estás ocupado com outros planos." 
(John Lennon)


Como medes as tuas vitórias? Como crias a tua felicidade?
Certamente já observaste pessoas que, do teu ponto de vista, aparentam ter tudo para serem felizes e no entanto não o são, sentem sempre que lhes falta algo, que estão desfazadas dos seus objectivos, que ainda não chegaram onde queriam chegar, etc.
Por vezes acontece que podemos não estar alinhados connosco mesmos, com as nossas potencialidades, com aquilo que são as nossas capacidades inatas e o melhor que temos dentro de nós e assim passamos ao lado do nosso objectivo de vida e isso cria dor - esse alerta universal que nos avisa quando algo está errado. E ao perseguirmos objectivos de vida que não são a meta daquilo que trazemos em nós para desenvolver, equivocamo-nos e assim sentimo-nos infelizes e perdidos, e ainda que possamos estar a fazer coisas extraordinárias com a nossa vida e que outros até possam admirar, não as reconhecemos e por isso não as sentimos, nem vemos.

Um bom exemplo encontra-se no filme "Mr. Holland Opus" (1995), que se traduz por "A composição do Sr. Holland". Este conta a história de um professor de música cujo sonho era ser compositor, e que vai leccionar, um pouco contra a sua vontade, num liceu de uma pequena cidade. À procura da sua realização através da composição que lhe permitiria deixar a sua marca no mundo, e ter fama e riqueza, deixa invariavelmente à margem o seu filho surdo e a sua mulher, até que descobre a alegria de poder contagiar os seus alunos com o seu amor pela música e harmoniza a sua vida familiar, partilhando inclusivé a sua música com o filho, encontrando maneiras de a transmitir à comunidade surda. No entanto, não deixa de se sentir um derrotado, quando já entrando na sua velhice, se vê impedido de leccionar na escola devido aos cortes do estado e se apercebe de que ainda não conseguiu compor a sua obra musical.
Numa cena final comovente, acolhido numa festa-surpresa, Mr. Holland descobre que "a vida é o que te acontece enquanto estás ocupado com outros planos" ("life is what happens to you while your busy making other plans") e descobre que a sua composição, a qual ele pensava, com pesar, que nunca tinha conseguido concretizar, e sentindo-se por isso um falhanço, existia afinal sob outra forma: as notas e melodias da sua Opus eram afinal as pessoas que tocou e influenciou durante a sua vida, transformando em pessoas melhores.

De facto, muitas vezes procuramos plasmar os nossos sonhos e anseios de uma maneira tão específica que os confinamos apenas a uma determinada forma e impedimos esses sonhos de poderem ser canalizados na forma que está em perfeita sintonia com o canal que somos nós, e que tem as suas próprias características e energia própria. Por falharmos em perceber isto, depois desanimamos ao não vermos os frutos que imaginámos, mas talvez a solução seja apenas uma questão de perspectiva e realinhamento.
É necessário conhecer em primeiro lugar quais são os nossos sonhos, o que nos impulsiona e nos faz mover na vida. Ir ao mais alto que conseguirmos, não envolver esse sonho numa forma específica, mas atingir a Ideia que está por detrás da forma que nos vier à mente. Em segundo lugar é preciso conhecermo-nos a nós mesmos, para saber quais as ferramentas que temos em mão para construir esse sonho de forma concreta. Ao conhecermos as nossas potencialidades, traçamos a intercepção com a Ideia que move o sonho, assim poderemos encontrar a nossa maneira única de concretizá-lo.
Isso é o que nos trará a realização e o sentimento de que a nossa vida teve importância, que fizemos algo que deixou marca. É o que nos trará descanso no final dos nossos dias quando já só restam memórias para apaguizar as dores do corpo e as angústias da incapacidade de viver a juventude. É o que nos fará partir em paz com a certeza de uma vida bem vivida, cuja música ecoará sempre na orquestra afinada que é o Universo.