Preocupa-te apenas com o que depende de ti



"De tudo quanto existe, algumas coisas dependem de nós, outras não dependem de nós. De nós dependem a opinião, os apetites, os impulsos, a aversão e, numa palavra, cada uma das nossas acções. Não dependem de nós o corpo, os bens, a fama, o poder e, numa palavra, tudo o que não constitui uma acção nossa. (...) mais importante é saber se pertence à categoria das coisas que dependem de nós ou às que de nós não dependem. Então, se for das que não dependem de nós, tem bem pronta a resposta: «não é nada comigo». "

in Manual, de Epicteto

A propósito de hoje estar um dia chuvoso, trago-vos hoje esta reflexão.
A chuva, na nossa sociedade é sempre indesejada por muitos; é desconfortável ter que andar com guarda-chuva para todo o lado, quem usa óculos fica sempre com as lentes "pintadas" de pequenas gotas, os carros na rua ameaçam-nos ao passarem perigosamente perto de poças de água, os acidentes na estrada multiplicam-se, o céu cinzento de nuvens chuvosas convida a tristeza e melancolia... Enfim, muitos são os motivos para reagirmos com desânimo quando abrimos os estores de manhã e vemos mais um dia de chuva, e ficamos a desejar o regresso rápido do bom tempo.

No entanto, ao pensar nisto lembrei-me de um relato de uma amiga que foi há tempos passar umas férias na Escócia. Ficou muito surpresa pela atitude dos escoceses face à chuva. Não corriam apressados para fugir dela, nem se preocupavam muito em abrir rapidamente o guarda-chuva na rua e muitos nem sequer o usavam. Estavam habituados à chuva, ela fazia parte da sua realidade e não era apenas um elemento a repelir, a evitar, a maldizer. Os poucos escoceses que observaram o comportamento desta minha amiga portuguesa, apressada a abrir o guarda-chuva e a correr entre sítios para a evitar, também a estranharam de volta, possivelmente percebendo logo que seriam estrangeiros. E como já dizia Fernando Pessoa, "primeiro estranha-se, depois entranha-se", assim é também com os elementos da nossa vida que dizemos que nos incomodam, e que pensamos que mais valiam não estarem lá, como a chuva nos dias de Inverno. Por vezes o que nos incomoda mesmo é o nosso próprio incómodo face à situação, e não o objecto que dá forma à mesma. É essa resistência interior perante aquilo que apenas é, ou seja, que não é bom nem mau, apenas existe, que nos traz desconforto e até mesmo infelicidade. Afinal, que mal nos faz a chuva quando estamos plenos de vida e podemos usufruir dessa vida apesar da chuva? As crianças, que não desenvolveram ainda essa resistência interior, despreocupadas com as suas roupas ou cabelos, recebem a chuva como algo natural e até são capazes de a achar divertida.  
Mas há chuva a todos os níveis. Por vezes chove lá fora, mas outras vezes chove cá por dentro, quando o nosso céu emocional e mental está carregado e cinzento. No entanto, a vida continua sempre, e há uns que vivem na chuva maldizendo o céu que a oferece e tudo o que com ela está relacionado, mas há também quem viva na chuva entendendo que o que depende delas não é cessar a chuva e trazer o sol. O que depende delas é viver a vida apesar da chuva, não perdendo tempo ou gastando energias a maldizê-la ou a lamentar-se, é estar atento ao que está ao alcance, ao que se pode fazer, pensar, transformar, criar, transmitir, sonhar, amar. É uma questão de foco, de desapego das situações que nos desagradam para a identificação com a vida que nos permeia e com o que dela podemos retirar e dar também. Nisto descobrimos algo fantástico, já dito pelas tradições populares: "não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe". Tudo é cíclico e tem apenas uma importância e peso relativos, que não nos devem perturbar no nosso caminho.  
Epicteto foi um filósofo estóico que apesar de ter sido escravo, soube ser livre dentro de si próprio, sabendo viver e ser feliz apesar da "chuva" da sua condição. Para além disso, ainda nos legou raios de sol nos seus escritos, que podemos usar para iluminar os nossos dias, reflectindo e pondo em prática os seus ensinamentos, mesmo naqueles dias de chuva e de céu carregado. 
E tu, já fotosophaste hoje?