O medo da luz



"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz."
Platão

O ser humano nunca deve fugir de si mesmo, da verdade ou da procura de saber ser mais e melhor. Até se poderá dizer mais: que o ser humano nunca deve deixar de querer Ser, pois essa é a sua finalidade. "Ser" é viver toda a sua própria potencialidade, é descobrir o que nos faz ser únicos, especiais, e ter a capacidade de colocar todos esses atributos cá para fora. É deixamos a máscara e revelarmo-nos ao mundo de maneira natural. Esta é no fundo a procura que todos encetamos desde o nascimento, e é essa vivência que nos fará realmente ser felizes. Tudo o resto é acessório, ainda que tenha também a sua importância para facilitar a manifestação do Ser. 
É natural ao indivíduo que este acenda, paulatinamente, a luz da sua consciência. E o que é a consciência? A palavra consciência pode decompor-se em duas outras: "com"+"ciência". Ciência, do latim scientia,  significa conhecimento. A consciência é então a faculdade que temos de aceder ao conhecimento. E que tipo de conhecimento é este? O conhecimento tem de abarcar tudo o que existe, caso contrário, seria um conhecimento parcial. Assim, existem dois  tipos de conhecimento que estão interligados: o interior e o exterior. O exterior é aquele que todos conhecemos e que é transmitido nas escolas, universidades, etc. e também pela experiência que cada um adquire da prática e aprendizagem diária no mundo físico. O conhecimento interior é aquele que nos permite ver quem somos, ver a verdade que jaz detrás das aparências do mundo externo, quais os nossos defeitos e virtudes, qual o sentido da vida, como sentir o que queremos sentir, pensar o que queremos pensar, porque agimos desta maneira e não de outra e quais as leis que regem estes mundos internos, o mental e o psicológico, aos quais geralmente damos pouca importância mas que na verdade, são a causa por detrás de muitas das nossas queixas e problemas. 
O conhecimento interior deve ser aplicado no mundo externo; o conhecimento externo deve dar-nos insights sobre leis internas. Tudo está relacionado. Simbolicamente, a consciência é representada por uma luz, aquela que ilumina os recantos escuros no nosso interior e exterior e nos leva a conhecer. 
Existem "homens-criança" que ainda têm medo do escuro e por isso não se aventuram nas descobertas do Ser, têm medo de conhecer-se, de lidar com as suas dores, com os seus defeitos, de desenvolver virtudes, têm medo de conhecer um rumo que os impele a ser melhores amanhã do que foram hoje, porque isso exige esforço e domínio. Preferem dedicar-se apenas às coisas simples da vida na ignorância das leis da mesma, e com isso sofrer mil vezes os mesmos tormentos e de falhar sempre nas mesmas provas, resultado da parca reflexão e da muito lenta e por vezes ausente mudança de hábitos, padrões emocionais e mentais que os poderia encaminhar para a felicidade. 
Mas existem também aqueles seres humanos que não têm medo da luz. Pelo contrário, procuram-na e entendem o valor que tem aquele ditado popular que diz: "Em terra de cego, quem tem um olho é rei." Esses, pouco a pouco vão alimentando um discernimento que os guia na escuridão dos tempos; facilmente identificam os buracos do caminho e os contornam. Por vezes também caem pois não são perfeitos; mas sabem o motivo pelo qual caíram nesse buraco e não relegam esse acontecimento a terceiros ou à injustiça do mundo. Não deixam de ter as suas próprias dores, no entanto, conseguem relativizá-las pois já não vêem apenas as sombras e a escuridão que os rodeava dantes; mas possuem agora um pouco de luz que os possibilita ver as formas, os volumes, a posição de cada coisa e a relação entre elas. Tão-pouco se centram no buraco em si, caindo numa espiral derrotista. Não se fixam no problema que por vezes insiste em persistir. Sabem bem que a única resolução para um buraco é enchê-lo. É buscar aquilo que falta, e por isso não se centram nele mas na qualidade oposta e a buscam activamente. Usam da resiliência e inteligência, fazem da vontade sua arma, e do amor o seu refúgio, e vão aumentando assim, com confiança, o trabalho consciente que levam nos seus dois mundos: interior e exterior. 
E tu, tens medo da luz?