O reflexo do relâmpago





Na obscuridade da noite, senti o ar carregado.
O cheiro a terra envolvia, e as nuvens acima pareciam congregar-se para uma reunião dos deuses. A princípio caíram umas tímidas gotas. E logo cessaram. Uns instantes de silêncio escuro anunciaram o intenso clarão que subitamente surgia, rasgando o céu aberto, esventrando ouvidos com o seu estrondo azul.
Parei para ver.
As nuvens beijavam violentamente o solo, que jazia sereno. Teias velozes percorriam a extensão do céu, iluminando o negrume que me envolvia como um manto profundo. O meu coração, acelerado, expandia-se ao som de cada trovão e vibrava alegremente. 
A noite quente adensou-se.
Os passos apressados na calçada silenciavam-se. Definhavam de volume, assim como o canto das folhas nas árvores e o lamento do vento. A voz do trovão tudo preenchia e o meu entorno tornou-se distante. Absorta, entreguei-me ao fulgor ensurdecedor dos relâmpagos e abracei o medo mudo da morte e a paixão cega de viver. 
A centelha resplandescente que habita em mim pedia-o.
Ela queria percorrer o céu dos pensamentos, as planícies de veludo cinzento dos sonhos, e sair das nuvens chorosas das emoções para beijar o chão húmido da vida. Desejava libertar o seu poder imenso e dar luz na escuridão medonha da noite. Queria abafar todos os burburinhos superficiais e inúteis com o seu som imponente, arrebatando grandiosamente o coração. 
Olhei o horizonte e mergulhei no infinito.
Perdi os minutos e os minutos roubaram horas. Subitamente, senti uma calma enternecedora e permaneci, por momentos, no berço da Vida. Pouco a pouco, voltei novamente a ouvir ao longe passos apressados, o canto das folhas e o lamento do vento. Um candeeiro ressuscitava e iluminava a minha face. 
A trovoada findava.