O Tsuru



Créditos: kekremsi


Eram amigos de longa data.
Ela, sempre tímida e reservada, deixava poucas pessoas entrar no seu mundo, mas ele, com aquele coração generoso e risada fácil, em pouco tempo lhe levantou o espírito aventureiro e a fez rir. As muralhas do seu coração caíram e sentia-se verdadeiramente feliz, pela primeira vez, na companhia daquela brisa aromática que era o seu amigo. Ele ensinava-lhe a ter mais fé na humanidade, que já há muito julgava totalmente perdida. Abriu-lhe a caixa de Pandora dos seus sonhos perdidos e incitava-a a voltar a persegui-los com a confiança de quem acredita no bem e na vida. Certo dia, ele interrompeu a conversa quando encontrou uma folha azul perdida no meio de um livro. Estavam a falar de sonhos, e do que faz as pessoas felizes. Pegou na folha azul e começou a fazer movimentos rápidos, dobrando e manipulando a folha de maneiras que ela não conhecia. Quando terminou, mostrou-lhe um pequeno pássaro azul e disse-lhe: “Isto é um Tsuru, um pássaro de papel em Origami. É para que nunca te esqueças de voar, porque tu és um pássaro livre.”

Naquela noite, ela deitou-se com o pássaro de papel ao lado, aninhado confortavelmente na almofada. Olhava para ele. E quanto mais olhava, mais se identificava com ele, e mais incómoda se sentia na sua segurança de muralhas impenetráveis e rígidas. O seu amigo havia entrado no seu castelo e ela nunca se tinha questionado como. Agora percebia: tinha aberto nas suas muralhas uma brecha, que agora lhe permitia ver o mundo lá fora e desejá-lo. Agora não lhe bastava mais estar ali, tinha que sair e voar pelo mundo. Uma liberdade desconhecida inundou-lhe o coração. Sentiu os lençóis, a cama, o quarto, toda a casa, e em breve voava pelas ruas, viu-as de cima até sair da cidade e viajou para outros países exóticos e nunca vistos. Já penetrava profundamente no reino dos sonhos. E estes, quando acordou na manhã seguinte, estavam tingidos de realidade, à espera apenas que ela esticasse a mão para os alcançar. Aquele pequeno pássaro mudou-lhe a vida e nunca mais seria a mesma daí em diante. Guardou-o na sua gavetinha de cabeceira e no seu coração.

Muitos anos se passaram desde essa noite, em que decidiu pela primeira vez, fazer algo de extraordinário da sua vida. Ela, que nunca vira mais do mundo do que a sua própria cidade e tivera apenas umas pequenas incursões à cidade vizinha para fazer umas compras especiais, iria sair de casa para viajar. Antes de ir, pôs tudo à venda, sem se preocupar em guardar nada em especial. Afinal, o objectivo era largar uma vida velha e sem sentido, aprisionada pelas muralhas que desejava ver destruídas, para construir uma totalmente nova e entusiasmante. E como já tinha o pássaro no coração, esqueceu-se, com o entusiasmo da viagem, de guardar o que tinha na gaveta.
Mas o destino não o queria deixar ir.

Depois de muito tempo sem conseguir vender a casa, decidiu-se em tentar vender pelo menos o seu recheio, aproveitando um regresso temporário à sua cidade natal. E finalmente arranjara compradores! Hoje viria alguém para comprar a mobília do quarto. O novo proprietário da mesinha de cabeceira (vendida juntamente com todo o recheio do quarto), chegou cedo e colocou tudo na sua carrinha de caixa aberta. Ao arrancar para se ir embora (apressadamente, pois o negócio tinha sido bom, não fosse a menina arrepender-se), a gaveta cai desamparada, no chão, e aí ficou, sem que ele se apercebesse. Não sofreu sequer um risco: era de madeira antiga, trabalhada, robusta. E o pássaro, que nela habitava, tinha-se recusado a ir embora, como se soubesse faltar cumprir o resto da sua missão. Ela ainda tentou chamar novamente o homem, mas este, impaciente por chegar a casa com novidades de uma boa compra, nem a ouviu.

Ao preparar-se para recolher a gaveta, vê o pássaro azul - ainda impecavelmente preservado - destacando-se de todo o conteúdo da gaveta, já metade espalhada pelo passeio. E repara em algo que nunca tinha visto: o pássaro com os tombos, abriu a asa e revelou algo escrito numa dobra da asa. Pegou no Tsuru e leu: “Nunca te esqueças de voar. E quando voares, não te esqueças de mim.” Ela sorriu e pensou no seu amigo de longa data, que tinha deixado de ver desde que saiu para viajar pelo mundo e ver milhares de coisas novas. Como se podia ter esquecido dele?! Ele que lhe tinha atiçado o fogo que lhe libertou a alma! Foi assim que percebeu, subitamente, que um pássaro preso não é feliz, mas, por outro lado, um pássaro que voe continuamente, sem dar descanso às suas asas, sem ligações a nada nem ninguém, sofre também de infelicidade. ”Um pássaro também precisa de um ninho. Um ninho que não o prenda, mas para onde possa voltar quando as suas asas estiverem cansadas.” – pensou. Mas o ninho não era a sua casa em Londres, que tantas vezes tentou vender. Era aquele coração bondoso, aquele riso fácil e generoso que já não via há anos e que recordava como se estivera na sua companhia ainda ontem.

Decidiu ligar-lhe. Do outro lado esperava uma voz áspera, amargurada, que apontaria o abandono indigno de uma verdadeira amiga. Mas o que encontrou foi apenas um “Olá” feliz e uma pergunta bem-disposta: “Estou a ver que já terminaste de voar. Só gostava que não tivesses demorado tanto tempo! Fico muito feliz que não te tenhas esquecido totalmente de mim. Que tens feito?”
Nessa noite repousou com o coração alegre e preenchido. Sentiu-se novamente em casa, abandonando as lembranças coloridas e atribuladas de Amesterdão e recordando os bons momentos passados naquele lugar, naquela casa, naquela cidade. Voltaria a vê-lo no dia seguinte. E no dia depois. E em pouco tempo, tudo era como dantes: amigos inseparáveis, até que um dia, mais tarde, nasceu um amor. E no âmago deste ninho que ela tinha descoberto, o amor uniu-os cada vez mais, ensinando-os a partilhar a vida e assim voaram juntos, levando o seu ninho para onde quer que fossem.

E o Tsuru nunca mais ficou esquecido numa gaveta, ou noutro sítio sem ser visto: ficou vigilante, emoldurado e pendurado à entrada da casa (que nunca foi vendida), como se dissesse a todas as pessoas que lá entravam: “E tu também, que nunca te esqueças de voar.”